quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Por que a Azul se recuperou mais rápido que a Gol e Latam?

Nos últimos meses temos visto uma troca de posições intensa entre as três principais companhias aéreas brasileiras Azul, Gol e Latam. Cada uma já ficou na liderança em algum mês desse ano, reflexo de uma demanda ainda instável devido à pandemia do COVID-19. 
Porém a Azul vem se destacando, sendo a empresa que mais rápido conseguiu recuperar a demanda, que inclusive já superou a demanda de 2019, anterior a pandemia! Mas como a Azul conseguiu esse feito e por que a Gol e Latam estão tendo mais dificuldade de recuperar a demanda? 


ANAC

1. A pandemia afetou sim a Azul
A pandemia afetou não só a a Azul, mas todo o setor aéreo mundial. A companhia teve um prejuízo bilionário em 2020 e precisou demitir funcionários. Porém, por diversos fatores, alguns mencionados a seguir, a companhia foi a que mais rápido conseguiu se recuperar. A Azul voltou a contratar e registrou lucro no quarto trimestre de 2020 e segundo trimestre de 2021.
Atualmente as três grandes companhias aéreas estão tecnicamente empatadas, mas enquanto a Azul já recuperou praticamente tudo e até superou o volume de passageiros transportados em 2019, a  Gol e Latam ainda têm uma demanda reprimida significativamente maior.

2. Malha regional
A primeira coisa que você nota quando confere as malhas domésticas das companhias aéreas é que a Azul voa para muito mais destinos no Brasil do que a Gol e Latam. "Desde que o mundo é mundo" as companhias aéreas normalmente começam voando voos regionais, vão crescendo, passam a voar para as capitais, começam a conectar as capitais e a medida que crescem mais vão abandonando as rotas regionais e focando nos grandes centros, onde os voos têm maior rentabilidade. Quem quer voar entre Tefé e Tabatinga quando pode voar entre Rio e São Paulo?

Embora menos lucrativos e atraentes, os voos regionais cumprem um papel importante de alimentar os voos. Um passageiro da cidade de Pato Branco precisa pegar um transporte terrestre até Curitiba para poder viajar de avião para outras cidades ou para fora do Brasil por exemplo. Ao criar uma rota regional passando por Pato Branco, essa mesma pessoa irá escolher essa empresa que criou o voo e isso vai aumentar o número de passageiros. Agora multiplica isso por cem, pois a Azul atende mais de cem cidades no Brasil. Essa é a grande vantagem e força da companhia. A Gol e Latam têm uma malha muito concentrada em São Paulo e Brasília, que sim são os aeroportos mais movimentados do país. Porém quando a pandemia chegou, os grandes centros foram justamente os mais afetados. Foi lá que a demanda mais despencou, consequentemente a demanda da Gol e Latam diminuiu mais do que da Azul.

Gol e Latam: foco em São Paulo e Brasília

Enquanto todos estavam de home office em São Paulo, o agronegócio estava a todo vapor na região Centro-Oeste por exemplo. Não tem como fazer a colheita e escoar a produção por home office, logo nessa região a demanda retraiu menos. Gol e Latam só tem voos de São Paulo e Brasília para Campo Grande e Cuiabá. Já a Azul voa para mais de 10 destinos além das capitais Campo Grande e Cuiabá, ligando os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul com várias capitais do país como Porto Velho, Curitiba, Goiânia, Recife, Maceió, Palmas, Belém, Belo Horizonte, Rio e os clássicos Brasília e São Paulo. 

Outro exemplo são as pequenas e médias empresas espalhadas no interior do país e pessoas no setor informal da economia que dependem muito mais dos voos para vender seus produtos e serviços e fazer negócios. Enquanto os grandes centros concentram grandes empresas, com maior complexidade e tecnologia, onde seus funcionários permanecem em home office.

Não é de hoje que a Gol e Latam perceberam que o Brasil não se resume a São Paulo, Rio e Brasília. Já houveram vários projetos para criação de voos regionais, mas nenhum decolou de fato. O que as duas fizeram nessa direção foram acordos de code-share com outras companhias regionais como a Passaredo. No entanto isso é diferente de operar voos próprios. Um dos motivos da resistência das duas empresas é a necessidade de adquirir aeronaves menores, o que aumentaria a complexidade de suas frotas. Vamos abordar melhor esse assunto no ponto 4.


3. Destinos únicos
Nada menos que em 80% de suas rotas a Azul é a única companhia aérea, ou seja, não tem concorrentes. Não é surpresa para ninguém que se só uma companhia aérea voa para aquele destino ou faz aquela rota, o preço da passagem será maior. 
Muita gente se pergunta "Por que a Azul é tão cara?" A pergunta foi respondida no parágrafo anterior.

Um passageiro hipotético de Parnaíba precisava pegar um ônibus todo mês para visitar sua família em Teresina, pois não haviam voos comerciais. Quando a Azul lançou seu voo em Parnaíba esse passageiro percebeu que as mais de 6h de viagem se transformaram em apenas 45 minutos e agora ele pode ir visitar a família toda a semana, sempre de Azul é claro, pois é a única companhia aérea que voa para  Parnaíba. Esse passageiro aceita que a Azul cobre um preço bem caro pela passagem, pois a diferença de tempo de viagem compensa.

Outro passageiro hipotético mora em Maringá e vai visitar a sua família em Curitiba. A Gol e Latam possuem voos em Maringá, mas apenas para São Paulo. Esse passageiro teria que fazer conexão para chegar em Curitiba. Ou então ele pode ir de Azul que tem um voo direto entre Maringá e Curitiba. Mesmo que a Azul cobre mais caro que a Gol e Latam, para o passageiro compensa ir de Azul porque é um tempo de viagem significativamente menor, além de ser muito mais cômodo.

Mas por que Gol e Latam não fazem a mesma coisa? A resposta está no próximo tópico.


4. Frota diversificada
Quando a Gol chegou no mercado, em 2001, ela trouxe o conceito "menos é mais". O modelo da companhia se baseou em operar um único tipo de aeronave. Isso realmente traz vários benefícios como custo menor de manutenção, treinamento, entre outros. Já a Azul adotou uma estratégia oposta, sua frota é composta por vários modelos de aeronaves, desde pequenas aeronaves regionais até grandes wide-bodies para voos de longa distância. Apesar de trazer maior complexidade, maiores custos de manutenção e treinamento, a Azul tem muito mais flexibilidade do que suas concorrentes. 

Se a Gol quiser operar em Porto Trombetas, ela não vai poder usar o seu Boeing 737 para 186 passageiros, pois não tem demanda para uma aeronave tão grande. Além disso é muito comum que aeroportos regionais não tenham infraestrutura necessária para receber um jato do porte de um B737 ou A320. Mas a Azul tem o avião ideal para operar lá, um ATR ou um E-Jet dão conta do recado. A expansão da Gol e Latam nas rotas regionais esbarra exatamente na necessidade de ter aeronaves regionais que são menores do que os menores modelos utilizados pelas duas atualmente. Gol e Latam usam B737 e A320 porque para voos entre grandes centros eles são ideais. Como essas aeronaves levam mais passageiros, o custo por assento é menor do que um E-Jet por exemplo. Mas a grande questão é: não adianta ter um custo menor por assento se você não consegue encher a aeronave!

Com a pandemia do COVID-19 a demanda despencou. Quanto maior a aeronave, mais caro é mantê-la parada. Se antes os B737 e A321 da Gol e Latam voavam com mais de 80% das suas capacidades de 186 e 220 passageiros, respectivamente, agora ficou muito mais difícil para as duas encherem os seus aviões. Por exemplo: o A321 da Latam voava com 80% de ocupação, levando 187 passageiros numa determinada rota. Com a pandemia a demanda caiu 70%, ou seja, agora embarcam apenas 56 passageiros. Mesmo que a Latam coloque a sua menor aeronave (A319), com capacidade de 144 passageiros, a ocupação seria de 39% - prejuízo na certa. Já a Azul tem muito mais flexibilidade. Para o mesmo caso ela poderia estar usando um A321neo para 214 passageiros, com 87% de ocupação antes da pandemia. Com a redução da demanda, os 56 passageiros embarcariam num ATR-72 para 70 passageiros, que teria uma ocupação de 80% - lucro na certa. Mesmo que a demanda não se recuperasse rapidamente e alguns meses depois essa demanda aumentasse para 112 passageiros, a Azul poderia colocar um E-Jet para fazer a rota ao invés de um Airbus, mantendo uma ocupação mais alta e garantindo um voo mais lucrativo.

Azul foi ainda mais fundo na sua estratégia em plena pandemia, quando comprou a TwoFlex e passou a operar aeronaves Cessna 208 para apenas 9 passageiros. Com essas aeronaves, a Azul pode operar em destinos ainda mais remotos, alimentando a sua malha. Os grandes centros têm farta oferta de voos enquanto muitas cidades do interior sequer tem voos regulares, mas estão crescendo. A Azul tem um "leque" grande podendo iniciar os voos com um C208, passar para um ATR, depois um E-Jet e quem sabe no futuro um Airbus.


A Azul vai ser a líder do mercado doméstico então?
Pode ser que sim e pode ser que não. A Azul está na vantagem nesse momento porque a demanda no interior se recuperou mais rápido que nos grandes centros e a maior parte das rotas operadas pela Azul não tem concorrência. A partir do momento que a demanda nos grandes centros se recuperarem com mais vigor, Gol e Latam terão a vantagem de poderem atender o aumento da demanda mais rapidamente por terem mais aeronaves paradas do que a Azul


1 comentários:

Wilson Colocero disse...

Excelente análise! Planejamento é a chave da sobrevivência.

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